Sobre a Contribuição Necessária do Intelectual para a Sustentabilidade.
Por Harald Hellmuth

Assim como uma reflexão anterior 4, esta foi “facilitada” pela coletânea recém lançada de pronunciamentos e entrevistas de Fernando Henrique Cardoso 1, mas não pretende ser uma resposta a seus posicionamentos. Antes são indagações sobre pontos não completamente explicados, entre os quais a resposta “à questão do papel que cabe à intelectualidade no futuro que quer para o Brasil”, formulada por Mário Soares, e que deve ser estendida para toda a humanidade. Com o sentido amplo implícito, as questões e as percepções seguintes, procuram alcançar um coletivo e não um de seus representantes, o que seria injusto.
O que a Sociedade deve esperar dos Intelectuais?
Via de regra os cidadãos não chegam a formular expectativas relacionadas a intelectuais, pois nem os percebem. A metáfora de que os intelectuais habitam “torres de marfim” não existe sem motivos. Mas estes motivos não podem resultar em prejuízos para todos?
Grosso modo pode-se entender que a sociedade paga os acadêmicos para que mantenham a memória cultural através do ensino. Interpretar as circunstâncias de vida em constante evolução, interpretar os valores e conjecturar sobre possibilidades de futuro são objetivos adicionais, que os “acadêmicos” assumem com absoluta liberdade.
Impõe-se então a questão sobre a dedicação dos intelectuais aos problemas que ameaçam as sociedades com a necessária intensidade e de forma que seus esforços alcancem efeito prático e sejam reconhecidos.
A Sustentabilidade entendida como “conjunto de condições do bem-estar da humanidade no futuro” é hoje o maior risco percebido já para um médio prazo de poucas décadas. Trata-se, por natureza, de um risco global. Entretanto, mesmo enfatizando que os intelectuais haveriam de se ocupar com o futuro, Fernando Henrique Cardoso, um intelectual com rara experiência prática, não chega a posicioná-la no foco central de suas articulações. Não faz, por exemplo, nenhuma referência a José Eli da Veiga 2, nem a Antony Giddens 3, nem a uma responsabilidade do Brasil diante da sociedade global.
Pode-se admitir que os intelectuais – filósofos, cientistas políticos e sociólogos – sabem melhor que os demais cidadãos, que as condições mensuráveis da Sustentabilidade 5 não serão alcançadas, nem serão conservadas, sem a presença de instituições informais motivadoras. Entre tais percepções constam
o que se chama “Menschenbild” – a autopercepção das pessoas – e o “Weltbild” – a percepção das relações no mundo. Cabe, pois, aos intelectuais procurarem entender o conteúdo de tais percepções necessárias, examinarem a presença nas sociedades atuais e incentivar o seu reforço e, quando aplicável, se empenharem por rupturas de percepções. Não deveriam vacilar diante de conclusões sobre a necessidade de reformar as próprias crenças. Esta seria uma tarefa atual urgente da “vanguarda pensante”.
Elementos do futuro.
É incontestável que o futuro é imprevisível. Exemplos de experiências recentes de desenvolvimentos surpreendentes são a emergência da Sociedade Civil, articulando causas ambientais e sociais, e a globalização da economia. A fixação em utopias só tem resultado em experiências de tal modo catastróficas, que os pensadores haveriam de bani-las de suas considerações por responsabilidade e compaixão. De qualquer modo cabe examinar se os rumos de desenvolvimento apontam para resultados desejáveis, o que significa também verificar se são compatíveis com as aspirações naturais dos seres humanos 6. Neste espaço se está limitado à tentativa de evidenciar essa visão através de poucos exemplos de desenvolvimentos conhecidos.
A migração de instalações de produção industrial para países atrasados no desenvolvimento teve várias causas absolutamente econômicas: A escassez de mão de obra nos países de origem, os custos de mão de obra associados aos modernos recursos de comunicação e transporte, as limitações da capacidade de importação e os potenciais de mercado a serem desenvolvidos. Várias empresas multinacionais hoje produzem em dezenas de países. Este processo chama-se “Globalização”. A globalização até agora já propiciou um grande crescimento da produção mundial de bens e serviços, oferecendo ocupação de melhor produtividade para centenas de milhões de indivíduos resgatados da pobreza. Mesmo assim persistem resistências ao reconhecimento dos benefícios sociais globais desse desenvolvimento, que é irreversível, por motivos de fixação ideológica. Por outro lado, ainda não se tem dado a devida atenção ao fato de que a globalização da produção é acompanhada de uma globalização da concorrência pelas oportunidades de ocupação.
Já não se tem mais dúvidas a respeito das limitações naturais do volume de consumo e produção. Trata-se de um problema global objetivo, concomitante e imbricado com o da redenção da pobreza – da ocupação – de toda a humanidade. Este problema chama-se Sustentabilidade. Os seus aspectos ambientais mais discutidos são o das mudanças climáticas, o da poluição e o do esgotamento de recursos naturais como água, petróleo e espécies animais e vegetais. Via de regra nessas discussões os problemas da Sustentabilidade Ambiental e da Sustentabilidade Social ainda são abordados em separado, isto é, sem considerar que os componentes de solução como Reflorestamentos, conversão da Matriz Energética para baixo carbono e aumento da Eficiência Energética são grandes geradores de ocupação. Todavia, a abordagem do problema da pobreza pelos intelectuais está preza uma imagem difusa de “injustiça e desigualdade”, a serem, hipoteticamente, mitigadas por ações paternalistas filantrópicas e por “distribuição – ou re-distribuição - de renda”, cuja continuidade no longo prazo não parece possível.
A atual crise econômica não resultou de ciclos de desenvolvimento tecnológico, de investimentos e de ocupação. Resultou de transgressões de conhecidas “práticas recomendáveis” na concessão de créditos, que foram patrocinadas por um governo, seguidas de artifícios fraudulentos no repasse de títulos e da falta de controle e punição de desrespeito a regras básicas de administração bancária. A tolerância de práticas reconhecidamente danosas ao bem-comum público – ocupação, poupanças dilapidadas - resulta de falhas de percepção ética e não de supostas “contradições do sistema capitalista”, como ainda se pronunciam espíritos ideologizados. Fato é que crises econômicas causadas por desatinos no plano financeiro da economia não são compatíveis com uma imagem de equilíbrio e segurança de uma Economia Sustentável, necessariamente global, que ainda não foi conceituada. Poderão os condicionamentos culturais, que faltam, ser articulados através de aplicações da razão de Kant aos assuntos que atingem grandes contingentes humanos?
O encaminhamento de todos os problemas da Sustentabilidade não é de natureza “intelectual”, mas as posturas na abordagem muito podem contribuir para a velocidade de progresso dos processos de mitigação.
Tais posturas estarão fundamentadas nas percepções das pessoas e nas percepções das relações no mundo acima citadas. Elas precisarão ser reconhecidas e espontaneamente aceitas em todas as sociedades com suas diferenciadas culturas. Subentende-se que alguns valores e impulsos básicos estão presentes em todos os seres humanos por natureza, quaisquer que forem as explicações religiosas ou filosóficas. Por exemplo: Todos querem sobreviver e alcançar um bom nível de conforto. A percepção de um relacionamento entre as categorias Liberdade e Responsabilidade também é universal 6. Partindo de constatações dessa natureza, possivelmente, se poderá reformar uma série de expressões intelectuais costumeiras.
Referências:
1. Cardoso, Fernando H.
Relembrando o que escrevi – Da conquista da Democracia aos Desafios Globais, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010.
2. Veiga, José Eli da
Mundo em Transe – Do aquecimento global ao Eco-desenvolvimento, Editora Autores Associados, Campinas, 2009.
3. Giddens, Antony
The Politics of Climate Change, Polity Press, Cambridge, 2009.
4. Hellmuth, Harald
Direita? < > Esquerda? www.insadi.org.br/blog 2010.
5. Como acelerar o Desenvolvimento Sustentável - Projetos – Agentes – Sociedades, inédito, 2006/8.
6. Marías, Julián
Liberdade e Responsabilidade.
www.hottopos.com/harvard2/liberdade_e_responsabilidade.htm - 2009.
Abraços e um bom fim de semana a todos
HH
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