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Arquivo de Março de 2010

Sobre a Tentação da Regulação do Câmbio: Economia clássica e Sustentabilidade Social.

Por Harald Hellmuth

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As relações de câmbio se manteriam estáveis se os balanços comerciais fossem equilibrados. Acontece que a China resgata da pobreza, incorporando à produção industrial-urbana, 30 milhões de cidadãos, anualmente, que passam a consumir mais, embora o seu consumo seja modesto. A velocidade do aumento da produção é maior que a velocidade do aumento do mercado interno da China.

Hoje para a China, e para a humanidade, o resgate de seus cidadãos da pobreza deve ter prioridade sobre o equilíbrio das balanças comerciais. Todavia, a China exportando enormes volumes de produtos simples e baratos - exemplo: sapatos - exporta também “desemprego”. Barreiras alfandegárias e o combate ao contrabando são medidas cabíveis para combater este efeito. Entretanto, para diminuir o desemprego, os Estados Unidos, e outros países, precisam, antes de tudo, reintegrar produções que “terceirizaram” e se empenhar na transformação da matriz energética. Pode ser que então a fabulosa velocidade de urbanização na China reduza um pouco.

É simples assim, mas certamente não é tudo. De qualquer forma, o restabelecimento de um melhor equilíbrio nos balanços comerciais não requer instituições internacionais de regulação, que são impotentes diante das políticas soberas dos países.

Focalizando o Brasil, pode-se completar observando que: O resgate da pobreza protagonizado pela China é sustentável, pois não se baseia em filantropia nem em incentivo artificial do consumo. Diante deste modelo, no Brasil se faria melhor se a população pobre habitante das florestas, da caatinga e do cerrado fosse atraída para cidades industriais, mesmo alguma nova, na costa das regiões Norte e Nordeste, com indústrias verdes supridas por grandes projetos de reflorestamento. Os projetos de reflorestamento também ocupariam um numeroso contingente de “famílias de assentados”. O desenvolvimento da geração eólica e da geração com biomassa, com produção nacional dos equipamentos, ao mesmo tempo em que também criaria ocupação de alta produtividade, solucionaria o problema da segurança do suprimento de energia de forma sustentável, sem agressões à natureza.

Desta forma, dando prioridade ao resgate dos contingentes de pobres o Brasil estaria prestando uma contribuição realmente significativa de alcance global para a redução das emissões de gases de efeito estufa e, por conseqüência, para a limitação do aquecimento do clima.

Até meados do século XX os pensadores da disciplina economia não tinham motivos para considerar os problemas atuais acima citados referentes à Sustentabilidade Social e Ambiental. Mas continua válido que o país que manipular o câmbio perderá um indicador importante de seu desempenho no mercado externo.

No momento atual não tem muita utilidade conjecturar sobre uma situação futura quando a prosperidade da sociedade chinesa - e da indiana e de mais outras - tiver alcançado um nível desejável e o seu mercado interno puder absorver uma maior porção da produção. Até então as demais sociedades impactadas pelas práticas políticas de manipulação do câmbio precisam se defender com recursos práticos de efeito imediato, a exemplo das medidas citadas, e fazer os seus deveres de casa referentes à Sustentabilidade Social e à Sustentabilidade Ambiental.

Abraços e uma boa semana a todos.

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Considerações sobre os conceitos Sobrevivência, Responsabilidade e Liberdade.

Por Harald Hellmuth

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“Durante oo curso do AWA - Arbeits und Wirtschaftswissenschafliches Aufbaustudium - em München, e particularmente nas matérias jurídicas, formei a idéia de que existem contextos consistentes de conceitos e que a consistência é congruente com a verdade. Na matemática, na física e na química a verdade é mensurável. No mundo dos conceitos a consistência indica a verdade. Com relação aos campos de conhecimento “não exatos”, me ensinaram que Dewey - filósofo classificado como pragmático - indicou que a verdade científica é encontrada percorrendo-se um trajeto de 5 estágios: exploração / observação, ordenamento / classificação, definição / conceituação, explicação / teoria, experimentação / aplicação. Quando se observa algo que não confirma a teoria é preciso retomar o processo.

Então, a consistência dos significados, definições, empregados é um indicador do acerto e da intenção de qualquer discurso escrito ou falado. Isto não é novidade. Mas foi por isso que se procurou por um significado para o termo Sustentabilidade no início do trabalho “Como acelerar o Desenvolvimento Sustentável”, ainda inédito 1, significado que o José Eli da Veiga, professor de economia na USP confessa não encontrar no final de “Desenvolvimento Sustentável - o desfio do século XXI” 2. É curioso que se empregue tão amplamente os termos Sustentabilidade e Desenvolvimento Sustentável sem ter uma referência mensurável do significado. Há percepções do que não é compatível com Sustentabilidade e desempenham-se esforços na “direção certa”, como por exemplo na política energética nos países europeus com o objetivo de reduzir as emissões de GEE. A concentração desses gases na atmosfera é uma nova referência monitorável. A evolução da eficiência energética, isto é, a razão PIB/MWh, é uma medida dos esforços de racionalização do consumo de energia. Junto com a participação das fontes de energia limpa na matiz energética indica o progresso na direção da estabilização do clima através da limitação da concentração dos GEE na atmosfera. A estabilidade do clima é uma das dimensões da Situação Sustentável 1, que se caracteriza pela Sustentabilidade. Esta é a condição de Sobrevivência da humanidade. Observa-se que o conjunto de conceitos assim formulados “funciona”.

Que a vida figure no topo dos sistemas de valores não requer explicações. Sem a vida nada existe. O impulso de preservar a própria vida é a maior das motivações. Contudo a preservação da vida só é possível em comunidades. Isto significa, que conservar a vida implica em contribuir para a sobrevivência dos demais. Tal contribuição, necessária e por isso esperada, fundamenta a Responsabilidade. Portanto, entende-se que o desempenho da Responsabilidade como sendo a entrega da contribuição para a Sobrevivência da comunidade em benefício da própria Sobrevivência. Trata-se de um relacionamento de reciprocidade que, em princípio é obrigatório e, ao mesmo tempo, é voluntário. A dimensão de ser voluntária, ou seja, a dimensão da Liberdade de ação, fundamenta a percepção de realização do indivíduo no desempenho da Responsabilidade.

As tradicionais percepções de Responsabilidade dos cidadãos se referem à Sobrevivência própria e da família, à Sobrevivência da organização para a qual trabalha e à Sobrevivência da sociedade na qual vive. Desde a segunda metade do século XX vem se consolidando uma percepção adicional pela Sobrevivência da humanidade. Esta nova visão afetará com intensidade crescente o comportamento dos indivíduos e nos seus contextos de vida, ou seja, família, organização e nação através da maior compreensão das conseqüências das ações individuais e coletivas. Malgrado os exemplos animadores de progressos, que podem ser observados, por sinal todos resultantes de ações soberanas e voluntárias, prevalecem ainda obstáculos para ações de grande escala e impacto decisivo. Talvez o obstáculo mais importante seja de percepção conceitual: A falta da compreensão de que Responsabilidade não é negociável; Responsabilidade só pode ser desempenhada por livre vontade de cada parte, embora seja um compromisso por Sobrevivência.

Para o âmbito do cidadão empenhado numa organização, Peter Drucker identificou o modelo do “educated person”: O “knowledge worker”, aplicando o seu conhecimento especializado é responsável pelo desempenho da organização. Todavia, os resultados que garantirão a sobrevivência da organização encontram-se fora desta, ou seja, na sociedade. Durante a última década, tem-se fortalecido a percepção de que as organizações além da Responsabilidade pela sobrevivência própria também são co-responsáveis pelas condições de vida - da Sustentabilidade Ambiental e da Sustentabilidade Social - na sociedade em que estão inseridas. Tem-se verificado, que o atendimento a estas dimensões “adicionais” reflete de forma positiva no desempenho econômico das empresas / organizações. Portanto, é previsível que passarão a integrar os sistemas de planejamento. Em “Gerenciamento pelas Diretrizes” Vicente Falconi descreve um modelo de planejamento pelo qual todas as ações na organização são orientadas para a realização das metas - de sobrevivência - da organização e que oferece aos colaboradores espaços para contribuir na formulação de metas e para desenvolver iniciativas. A liderança tem a dupla função de realizar metas com sua equipe e de estimular os colaboradores a explorarem os espaços de liberdade, de forma que todos venham a corresponder ao modelo do “educated person”. A motivação para o melhor empenho possível nasce e se fortalece nas pessoas através de experiências de realizações.

Por melhor que as organizações percebam e desempenhem as Responsabilidades estendidas ao âmbito do bem-estar das sociedades, ações de impacto decisivo para a Sustentabilidade cobrindo amplas extensões territoriais e numerosos contingentes humanos estão fora de seu alcance de realização. Ações como por exemplo o oferecimento de oportunidades de trabalho com nível de produtividade que gere renda para a manutenção de níveis de conforto mínimo, a indução da redução do consumo de energia, a composição da matriz energética de baixas emissões de GEE, a conservação de biomas e da biodiversidade e a promoção de extensos projetos de reflorestamento cabem aos governos e às instituições dos estados. As sociedades ainda não se mobilizaram para exigir de seus representantes o desempenho soberano da Responsabilidade pela realização de uma Situação Sustentável para a Sobrevivência da humanidade1. Deverá então surgir um modelo de gerenciamento político, análogo ao modelo de gerenciamento de organizações, tendo como meta a possível contribuição nacional para a Situação Sustentável, que é global por natureza.”

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