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CURIOSIDADES DA ETIMOLOGIA

CURIOSIDADES DA ETIMOLOGIA

Para o falante da língua portuguesa, o significado da palavra desastre certamente não é desconhecido. Ao empregar tal palavra, ele com certeza atribui ao vocábulo, como consta no dicionário Aurélio, o sentido de “acontecimento calamitoso, especialmente o que ocorre de súbito e ocasionando grande dano ou prejuízo”. É provável no entanto que esse mesmo falante não saiba que a palavra desastre deriva do vocábulo latino dis-astrum. Em latim, esta palavra significa literalmente “má (dis) estrela (astrum)” e era empregada para qualificar, de acordo com antigas concepções astrológicas, todo “acontecimento calamitoso causado por uma má posição estelar”. Na passagem do latim para o português, como se pode perceber, o pressuposto da concepção astrológica se perdeu, conservando o vocábulo apenas o sentido de “evento sinistro”.
A etimologia é a área do saber que tem por objetivo descobrir, como no exemplo acima, o sentido original das palavras, recuperando-lhes tanto a forma fonética como o sentido semântico. Eis algumas palavras cuja etimologia é recuperada:

Azar

Nas línguas neolatinas (aquelas derivadas, como o português, do latim), esta palavra tem duas acepções de emprego, significando ela, seja “desgraça”, “infortúnio” ou “fatalidade”, seja “casualidade”, “acaso”. A origem do vocábulo, porém, é árabe - sendo a forma portuguesa uma adaptação fonética da palavra az-zaHar. Na língua árabe, az-zaHar é o nome que se dá ao “dado” - o pequeno cubo numerado que se emprega nos jogos. Neste exemplo, observa-se que nas línguas neolatinas a forma fonética do árabe se conserva, e que o sentido semântico primário, referente ao dado, se perde - ou, como também se pode argumentar, que seu sentido se mantém, mas deslocado, visto que é comum o jogo de dados - que se baseia em fenômenos casuais - redundar, para o perdedor, em infortúnio (latim infortunium, quer dizer, “ausência de [bom] destino”) ou desgraça (do latim disgratia, “má retribuição [dos deuses]”).

Etimologia

Do grego etymologia, derivado de éthymos + logia. Ou seja, “estudo da verdade (das palavras)”.

Amigo

Deriva da palavra latina amicus, a qual, por sua vez, se vincula ao campo semântico do verbo amare, “amar”. Na origem, o vocábulo amicus designava precisamente “a pessoa a quem se ama”.

Fidelidade

Do latim fidelitas, vocábulo oriundo do substantivo fides. A palavra fides designava, nos primórdios da língua latina, a “adesão [do devoto aos preceitos de sua religião]”. Na evolução desse idioma, o sentido da palavra se alargou, embora conservando o conceito inicial da adesão positiva a um princípio religioso, sendo ela empregada em diversos sentidos, como, por exemplo, “sinceridade”, “retidão”, “honestidade”, “responsabilidade”, “confiança”. Em latim, fidelitas significa “aquilo que possui fides”.

Sentir

Do latim sentire, “experimentar uma sensação ou um sentimento, quer por meio dos sentidos, quer por meio da razão”.

Obelisco

Do latim obeliscus, que por sua vez deriva do grego obelískos, que significa… “espeto”.

Sacrifício

Do latim sacrificium, composto de sacer e ficium. Palavra afeta ao contexto das antigas celebrações ritualísticas da cultura indo-européia, significando exatamente o “ato de fazer/manifestar o sagrado”- ou seja, o “ato de passar da esfera do profano para a esfera do sagrado”. Na língua portuguesa a palavra tem o sentido de “privação, voluntária ou forçada, de um bem ou de um direito”. Este significado constitui uma redução do campo semântico original do vocábulo, acima referido, de que se manteve apenas a referência à prática, nos ritos, de oferecer-se um bem a uma divindade, com vistas à obtenção de alguma dádiva.

Contemplar

A palavra tem origem em rituais de magia. O verbo depoente transitivo contemplari significa, em Latim clássico, “observar com atenção”, e na composição da palavra entram o prefixo intensivo cum e o substantivo templum, “templo”. Acontece que o significado original (no Latim pré-clássico) de templum era “local delimitado no chão como sagrado, para a leitura de presságios através da observação das entranhas de animais sacrificados”. Nesses lugares os adivinhos (então chamados haruspices, de haru, “intestinos”) desenhavam figuras geométricas marcando os limites da área a ser purificada, e de onde se conjuravam os espíritos para as funções divinatórias. De acordo com a boa ou má qualidade destas, o lugar ficava com melhor ou pior reputação; é claro: nos mais concorridos criaram-se alojamentos permanentes tanto para os sacerdotes como para seu público - e estavam criados os templos. [LATIM COMTEMPLARI, “observar” “templo”, “local demarcado”.]

Delirar

Às vezes, francamente, o espírito humano dá nome às coisas de maneira bem poética. Um lavrador vai a seu campo no tempo da semeadura para o arar, preparar as sementeiras. Faz um comprido sulco, raso e largo, com o facão do arado; e depois volta fazendo outro, e outro, muitos mais, todos cuidadosamente paralelos entre si, para facilitar o lançamento das sementes de um e outro lado das alamedas… Mas a calma do sol da tarde age-lhe misteriosamente na alma, e ele se distrai, e sonha, e sonha mais e se distrai mais ainda, enquanto o arado corta a terra, já sem rumo fixo, em linhas desconexas. Deu para imaginar a cena? É uma cena de delírio, tal como entendemos o que isso seja. E mais: estar fora de si, imaginar loucuras, e se possível cometê-las… na gíria jovem deste fim-de-século, enfim, delirar é “viajar”. Sair dos sentidos. “Fulana viajou”, diz alguém assustado, ao ver a amiga sempre tão comedida, sempre tão “em ordem”, um dia chutar o pau da barraca, virar a mesa e acabar rodando a baiana, num puro delírio. Que também pode significar uma outra “viagem”, triste viagem de parca volta, a das drogas. Pois é. Na raiz, a palavra delirar nos fala de tudo isso, pois quer dizer, literalmente, “sair (o lavrador que conduz o arado) do sulco (planejado)”. O verbo latino delirare é formado por lira, “sulco feito pelo arado”, com o prefixo latino de-, “fora de”, “afastado de”. Por falar nisso, “estar fora de si” tanto pode ser um estado de delírio como um estado de êxtase (ekstasis, “arrebatamento íntimo” pref. de-, “fora de” + lira, “sulco de arado”.

Esotérico/Exotérico

Livros muito técnicos, daqueles para entendidos, são sempre esotéricos (ainda que estejam em estantes diferentes dos “esotéricos” nas livrarias); já os livros didáticos são sempre exotéricos - ainda que não existam estantes de “exotéricos”. Isso porque esoterikos, em grego, significava “aquilo que é reservado aos que já estão por dentro” (de eso-, “dentro” pelo comparativo esotero, “mais dentro”) enquanto que exoterikos queria dizer “aquilo que é aberto aos que estão de fora” (de exo-, “fora” comparativo exotero, “mais fora”: cf. EXÓTICO e EXTERNO). O moderno sentido de “esotérico” significando “iniciado”, “adepto religioso”, já era conhecido em tempos antigos, como se pode ver na Bíblia grega, em que São Paulo Apóstolo trata dos hoiso, “os de dentro” (I Coríntios 5, 12). [GREGO ESO- “dentro” > comparativo ESOTERO, “mais dentro” > ESOTERIKOS, “os iniciados” .]

Universo

A etimologia foi pedida por mais de um consulente, então vamos lá; entretanto, essa palavra - preciso lembrá-los? - construída há milênios, sintetiza conceitos e idéias que apenas serão compreendidos em análise filosófica. A simples etimologia será insuficiente, e quando muito servirá só para que alguns queiram e procurem descobrir mais - filosoficamente. A palavra universus, em Latim clássico, significava “o todo”, “tudo considerado em conjunto”. Há exemplos nos escritos de Lucrécio, Cícero, Terêncio, Tito Lívio e mesmo em César, cada um no limite de seu próprio entendimento do “todo”, de acordo com o que podia enxergar, ora referindo-se ao mundo (que era tão pouco conhecido…), ora à pátria (terra mais habitantes), ou ainda, reduzindo o conceito, à família ou à casa e arredores. Era composta de unus, um”, mais versus, “uma volta”, “em direção a”, que por sua vez era o particípio do verbo vertere, “girar”, “voltar”. A volta ao Um… viram como a etimologia é mesmo insuficiente? O Latim unus vem de uma raiz indo-européia que deu também o grego oinos e o sânscrito eka, ambos termos para “um”, “único”. Depois gerou os derivados unidade, união, unânime, universidade, etc. O Latim versus, e sua palavra-mãe vertere vêm também da raiz indo européia uer, “girar”, que por caminhos di-versos gerou um enorme número de palavras portuguesas, por exemplo: “verme” (aquilo que se retorce, que gira), “verso” (linha de poesia que volta, ao fim de cada compasso, ao começo da outra linha), etc. [Latim universum, neutro sing. de universus > unus, “um” + versus, p.p. de I>vertere, “girar”.]

FELICIDADE

Em Latim, a palavra felix (genitivo felicis) queria dizer - originalmente - “fértil”, “frutuoso” (”que dá frutos”), “fecundo”. Veja-se a propósito, nos mapas antigos, a “Felix Arabia”, nome das terras habitáveis do Oriente Médio, em oposição às terras de deserto lá existentes. Mais tarde, por extensão metafórica de sentido, já que o que é fértil é também propício, favorável, felix tornou-se sinônimo de “afortunado”, “alegre”, “satisfeito”. A raiz de felix é indo-européia: *dhe(i) “amamentar” - que deu também, em L., as palavras filius, “filho”, fecundus, “fecundo” (sinônimo de fértil) e femina, “fêmea” (aquela que amamenta). [LATIM FELICITAS “felicidade” LATIM (g)nobilis, “que se deve conhecer” ,”conhecido”, “famoso” nobre.]

OPORTUNIDADE

- entradas ou saídas Se uma oportunidade é uma ocasião, uma circunstância favorável, de fato são literalmente oportunos os ventos que levam - ou não - a bom porto: a palavra latina opportunus foi formada do prefixo ob- “em direção a” + portus “porto de mar”, e na origem, em latim pré-clássico, utilizada apenas para nomear os ventos mediterrâneos que enfunavam as velas dos barcos em viagens de ida ou de retorno ao lar: eles é que eram “oportunos” - ou não. A oportunidade que se deve aproveitar é, assim, o bom vento que nos pode levar sem demora a porto seguro: o qual, por sua vez, pode ser uma entrada… ou mesmo uma saída. Um porto, afinal, não é - sempre - uma porta? [LATIM OPPORTUNITAS



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Uma resposta para “ CURIOSIDADES DA ETIMOLOGIA ”

  1. nádia Maio 21st, 2008 09:15

    gostaria de saber a ORIGEM DA PALAVRA nádia, SE PUDEREM ME AJUDAR FICAREI MUITO AGRADECIDA.

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