Arquivo de 2 de Maio de 2007
As histórias de nossa gente
Em minha família, sempre cultivamos as histórias de nossa gente. Cresci ouvindo as longas aventuras de Vovô Neco, vovó Dindinha e de inúmeros tios e tias e incontáveis primos. Coisa boa este hábito.Nos dá chão.Deixa-nos claro que não somos seres isolados.Somos pontinhos em longa linha de seres.
Uma história que meu pai sempre gostou de contar fala de um canal que passa pelas terras de nossa família.
Cresci vendo aquilo que sempre me pareceu um riozinho, cercado de antigas árvores.Pés de Jamelão, jaqueiras, rendilham suas margens, fazendo-lhe sombra e abrigando o gado nas horas de sol ardente. Nunca ia muito perto, pois havia mato demais e eu tinha medo de mato, então.Tinha muitos medos.
Pois um dia, meu pai levou-me até suas margens e contou-me sua história.Não era riacho.Era um canal. Cavado por braços escravos. Fiquei assombrada. Conto a história.
Deu-se que, no século XIX, Campos dos Goitacazes foi a primeira cidade da América Latina a ter luz elétrica. O imperador precisava ir inaugurar a tal iluminação.Mas como ir da Corte do Rio até Campos sem estradas? De navio, claro.O único problema era que Campos não tinha porto. Não tem até hoje, pois, sua plataforma continental, riquíssima, é, entretanto, abrupta. Por outro lado, já naquele tempo Macaé, um pouco mais ao sul, já tinha seu porto. Mas como levar o velho imperador do porto de Macaé até Campos? A viagem à cavalo era longa, difícil.Ele não agüentaria.
Os poderosos barões do café da região, senhores de tudo sobre a terra, resolveram a questão, fazendo cavar um canal que liga até Hoje o mar de Macaé a Campos. Não creio que sequer um eles tenha ficado alguma hora vendo o riacho nascer dos braços e mãos dos escravos que o construíram.
Pronto o canal, marcou-se a data. O imperador e seus acompanhantes embarcaram no cais da Praça Mauá, suponho; desembarcaram em Macaé e de lá, em barcaças remadas por mais escravos, seguiu pela região até Campos. Almoçava em uma fazenda, dormia em outra, azedo a alegria dos Viscondes de Quissamã, dos Condes de Araruama, da nobreza cafeeira.Esta mesma que anos mais tarde o exilaria.
Todo o meu ser se repugna à idéia de escravidão.De qualquer tipo.
E, se hoje resolvi contar esta história, é para prestar um tributo àqueles que com seu trabalho, sua dor, seu braço construíram, ainda que não por escolha, um caminho de beleza.
O imperador se foi. O café se foi. Os barões se foram.O canal metamorfoseado em riacho está lá.Manso, sereno, abrigo de gente e de bicho. Os homens que o criaram transcenderam o tempo, deixando sua marca, sua história, sua memória.
Como diria Mário de Andrade: “ Fez-se o peru, comeu-se o peru.”