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Arquivo de 18 de Fevereiro de 2007

Os carnavais de minha lembrança

Os carnavais de minha lembrança

vila - vila

Não é saudosismo. É saudade.
A lembrança dos sábados de carnaval de minha infância se insinua sorrateira, generosa, alegre.

Minha avó Inah, folia de quatro costados, encomendava de meu pai pandeirinhos coloridos, máscaras inocentes, confete, serpentina e bisnagas que enchíamos de água com gotas de alfazema e chamávamos de lança perfume. Só mais tarde perdi a inocência e com ela o encanto de meus lança-perfumes domésticos.

Mamãe fazia bolinhos. Minha avó era louca por bolinhos. Papai comprava cerveja e guaraná. Tudo isto para, como diziam, varar a noite. Havia as noite dos Bailes de Gala do Municipal, do Monte Líbano, do Sírio e Libanês. Um deslumbre de reis, rainhas, faraós. Seres brilhantes, míticos, vistos entre um bolinho e outro. Sempre suspeitei que rei algum foi tão bem vestido quanto os reis de Clóvis Bornay e de Evandro de Castro Lima.

Havia também os desfiles das Escolas de muito samba, das Grandes Sociedades com seus carros a falar de outro tempo. Minha avó contava histórias de outros desfiles.

E comíamos bolinhos.A noite se urdia vagarosa em imaginação e bolinhos.

Mais tarde, já não ficava em casa. Havia o carnaval de rua, de dar a volta no coreto da Praça do bairro. Fantasias simples: cigana, havaiana. Coisas de cores e flores preparadas tais quais os bolinhos por mamãe claro, sob a assistência de vovó. Eu, demasiada, imaginava-me personagem. As tranças longas pediam puxões dos mais afoitos.

Ao voltar para casa, noite ao meio, sempre havia uns bolinhos tardios e uma avó carnavagando na poltrona, animada. Via com ela restinhos de desfile. Ia dormir ninada pelos sambas que hoje sei imorredorouros: Iluayê, Lendas e Mistérios da Amazônia, Iaiá do Cais Dourado. Chica da Silva, Tiradentes inundavam a noite sonho adentro.

Hoje, não tem mais bolinhos. Bem que tentei fazer, não têm o mesmo gosto. “ Não tem mais menina de trança”. Reis e rainhas foram decapitados pelo tempo. Vovó brinca carnaval no céus, com pernas renovadas, livres enfim do reumatismo e da poltrona onde presa, dançava. Canta quem sabe com Chiquinha Gonzaga, abrindo alas.

Não sei mais os sambas de cor, mas a Águia da Portela ainda faz meu coração dançar.

Beijos carnavalescos, Aninha.

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