BLOG INSADI TEAM - REUNINDO PESSOAS E EMPRESAS

Uma história de se matutar.

História de gente e bicho

Nestas bandas em que vivo, há uma ave de hábitos singulares.Ao contrário da maioria, faz o ninho no chão.Enquanto os filhotes não nascem, a fêmea fica chocando , claro, e o macho monta guarda.

Tem bico longo, espora afiada e uma coragem insuspeitada em tão pequena criatura.É o terror dos acampadores. Briguento, sobrevoa as imediações do ninho, atacando quem se aproxima. Nas trilhas de caminhada é causa de sustos e corridas.

Certa vez, em Lages, SC, eu dirigia um Curso de Formação de Chefes Escoteiros, e como sabia que no local havia um lindo e grande gramado, programei muitos grandes jogos ao ar livre. Foi impossível realizá-los. O tal campo fora já loteado por alguns casais de quero-queros.Este o nome da atrevida avezinha. Insensíveis a qualquer diplomacia, perseguiam os aventureiros e não houve remédio a não ser ceder o terreno à “ senhora vizinha.”

Pois bem, dá-se que esta semana aconteceu um surpreendente evento.Um casal de quero-quero fez ninho bem no centro do vasto gramado da minha escola. Bem no centro da cidade . O que torna o fato digno de ser relatado é que as crianças devem ter feito algum trato com as avezinhas. Não se sabe bem de onde surgiu uma grade , destas que costumam proteger mudas de árvores em pracinha, posta ao redor do ninho. Mamãe quero-quero, fica,assim, visível e protegida. Ao contrário de seus hábitos ditados pelo instinto, papai quere-quero sobrevoa uma área que não chega a um metro. Com muito poucos gritos de alerta.Em uma semana inteira , não atacou ninguém –nenhum. As crianças - e aí está um povinho que vai da gente miúda de pré-escola aos engajados adolescentes do terceirão- cuidam e exibem seus protegidos orgulhosamente.Acho que ninho algum foi tão visitado. É uma verdadeira romaria pra ver.

A mim, o que me comove, é o acontecimento notável do pacto possível entre humanos e aves. As crianças de minha escola crêem, percebo eu, que tenham sido nomeadas guardiãs deste ninho por uma voz que lhes falou ao coração, à alma , ao cérebro límbico , sei lá. Mas que falou, falou. Quase posso ouví-la também. Seu eco me dá esperança. Esperança de que essa experiência de compaixão e cuidado fique implantada para sempre naqueles sereszinhos tenros ainda como os ovos que estão sendo chocados.E que por memória desta alegria de ter sido em início da vida um protetor , todos eles se tornem para sempre guardiãs da vida.Sejam o que forem vida à fora.Estejam onde estiverem. Façam o que fizerem.

Que a eloqüência da Vida os cative irremediavelmente.

Quem sabe, estamos, no campo de minha escola, diante de um milagre.Gosto de pensar que sim. Milagre é a supressão temporária do tempo. Ali , o tempo parou .E se lobos e cordeiros não andam já a pastar juntos, homens pequenos e aves guerreiras convivem em alegria e confiança .Esta a grande, imorredoura lição. Acho que assim , Gaia está gerando o mundo novo.



 | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 210

Deixe uma resposta.